segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sobre mudanças.

Depois de um certo tempo cada um toma seu rumo. Cada um passa a ter tempo e controle sobre sua própria vida, começa a descobrir de quê realmente gosta e a entender a si próprio. Fica por perto quem deve, quem de algum modo se assemelha conosco; alguns acabam indo embora - de perto, de nossas vidas, nossas rotinas. Dou toda a certeza de que não acontece só comigo: o Universo dá uma cambalhota e move tudo do lugar, só pra mostrar que a gente não manda em nada. As coisas mudam, o caminhão de frete não dá conta de tudo o que a gente carrega e vai deixando algumas coisas pra trás - queiramos ou não. A gente tenta voltar, fica perdido feito cão de mudança que o dono não se importou em perder em alguma rua do caminho. Busca em todos os cantos, beiras de estrada, debaixo das pedras, em cada esquina, tenta farejar o caminho de volta. Algumas coisas não voltam mais. Às vezes se encontra algo perdido, mas já caído num bueiro e que não dá pra tirar de lá sozinho. Outras vezes está no alto ou em outro lado de uma montanha, inalcançável, inatingível. Uma montanha de tempo, adversidades ou apenas o horizonte que se ergueu à nossa frente. Não se pode chegar de surpresa sem saber se a visita é indesejada. Não dá pra jogar uma corda se, do outro lado, uma mão se nega a pegá-la. De vez em quando o que acontece é a vida nos enfiar a aceitação garganta abaixo: as coisas mudam, meu chapa, e você não pode fazer nada por isso. O tempo-espaço já não é mais o mesmo desde aqueles segundos em que se selou uma despedida. Teríamos uma excelente máquina do tempo se todos se dispusessem a esquecer o que aconteceu, viver novamente o mesmo dia e dar uma nova chance. Mas temos o péssimo costume de levar o rancor no peito defendido por uma muralha de orgulho, como uma mãe que protege o filho nos braços com todas as forças que possui. Quem nos ajudou um dia a carregar os pesos da luta já não se encontra por perto pra comemorar a vitória. O fardo das dificuldades do caminho, quem ajuda a dividir já é outro alguém. No pior dos casos, se aprende a carregar tudo sozinho. Quem não parecia ser boa pessoa hoje é quem sabe ler em nossos olhos se mentimos que está tudo bem. Quem se preocupava conosco hoje se preocupa em desviar de nossos pedidos de atenção e suporte. O mundo segue girando, pensamentos mudando de lugar, interesses se direcionam a outros focos e nos resta aceitar que, de um segundo a outro, nada mais está igual. O vento leva e traz as tempestades, a maré leva e traz o que entra em seu caminho, nossas decisões fazem o mesmo nos arrastando a bons momentos ou nem tanto. O ciclo tende a continuar; incerto, mas ainda ciclo, depositando em nossas mãos as mais diversas possibilidades. O que cada um faz com elas é o que define quais horizontes se desdobrarão à nossa frente. Você não fez nada de errado e eu também não fiz. Nossos interesses encontraram uma bifurcação no caminho e separaram nossas mãos-dadas. As razões que nos prendem longe de alguns começam pequeninas, crescem a seu tempo e formam os elos das correntes que hoje nos mantém perto de outros. Não se consegue, simplesmente, fugir dessas correntes. A liberdade pode ser saber aproveitar os pequenos momentos acorrentados a quem, agora, possui elos como os nossos.







quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sobre quem manter por perto.

Não há muito tempo, descobri que tipo de presença me faz um bem danado. Não que precisem de classificações ou devam passar por um grande processo seletivo, mas tem gente que é gostoso se deixar envolver pela presença. Uma grande gama de jeitos que são como as cores: ao invés de explosivos, imponentes, violentamente envolventes e gritantes, atingem tons mais suaves; acalmam o peito, oferecem conforto, parecem um bom lugar pra se habitar  nem que seja só por um tempinho. 

Não preciso ter por perto quem faz imposição do próprio humor, das próprias vontades e opiniões, quem canta de galo em terreiro que pede igualdade e diversidade de opiniões. Quem chega gritante como o sol do meio-dia, sem saber que a primeira luz da manhã é muito mais agradável. Quem elogia desnecessariamente pra ganhar pontos e critica apontando dedos de aço a quem pensa diferente. O exagero é inconveniente, incomoda, nos tira visão e audição, impedindo a percepção do que é brando e muitas vezes mais importante. 

A primeira e a última luz do dia, as pequenas luzes no céu quando todas as outras se esvaem. A Lua nos perseguindo em nossas peripécias noturnas, dizendo adeus somente quando vê que o Sol chega para continuar a nos guiar. Pequenos detalhes em fotografias e composições, o efeito do grafite no papel. Grandes e diversas conversas, compartilhamento de experiências e superações, elogios sinceros, merecidos e críticas construtivas. Quero ter por perto quem também sabe apreciar essas pequenas coisas. Quero ter por perto quem me ensine a gostar de muitas mais. Quero e preciso de quem me faça dividir e multiplicar ideias, experiências, sensações e silêncios (daqueles em que a gente se sente bem e sem a obrigação de dizer nada pra quem está do lado). Efusivos, não, obrigada. Esses só querem usar nossas telas e papeis, substituir com as próprias verdades tudo o que levamos grande tempo e esforço pra pintar. 

Quero trabalhar arduamente por quem está comigo e, de vez em quando, deixar gente nova entrar na dança. Números por números, contatos por contatos e palavras vazias só continuarão a deixar espaço em branco. Por enquanto, quero meu tempo dedicado a quem já tenho paisagens com quem construir.

Aprecio quem me traz leves pinceladas de novas ideias e experiências, não quem quer jogar aos meus ventos todo um balde de tinta. Quem faz uma pequena correção aqui e ali, não quem quer apagar toda a minha história pra que eu construa outra. Quem dá conselhos pelo meu bem, não quem quer impor o lado da encruzilhada que devo seguir. E tenho um apreço ainda maior por quem me ajuda a escolher as cores e também acaba virando cor nas artes que espalho por aí.


 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Sobre o coração que procrastina.

Deixa pra depois. Por que agora? Pode ser amanhã. Pode ser outro dia. 

Tô sem tempo. Tô sem vontade, tô sem coragem.

E é assim que começa o adiamento de qualquer sentimento. De qualquer ação. De um reconhecimento, de uma parabenização, uma congratulação, um agradecimento, da valorização de quem está por perto. Procrastinamos ligações, cartas, bilhetes amassados, mensagens no meio da madrugada.

A gente não diz que ama por medo de não ser amado de volta. Não admite que quer alguém por perto por medo de, no dia seguinte, esse alguém nos deixar. Não agradece porque pode deixar pra amanhã. Adia o choro pra não deixar que alguém perceba qualquer fraqueza. Adia o sorriso porque o motivo dele é alguém que nos causou rancor. Não abraça pra não ficar encabulado ao demonstrar o desejo de encher o peito de conforto e os braços com alguém querido. Não admite pra não precisar passar por nenhum julgamento, é mais fácil manter assim. Não fala o que pensa pra não ser alvo de pensamentos negativos. 

A relação de coisas procrastinadas versus coisas procrastinadas que afinal deram certo não costuma ser muito boa. Parece que os cinco minutos pra escrever a conclusão do trabalho antes da entrega ou pra estudar antes da prova vão render mais que horas a fio de estudo. Parece que se a gente esperar até algum momento oportuno vai ser melhor, menos estranho e mais agradável fazer alguma declaração. Marcar data pra visitar alguém parece ser mais certo que aparecer de repente e fazer uma surpresa antes do tempo. Parece que desacelerar ou parar uma leitura vai fazer o final daquele livro tão bom nunca chegar; deixar pra ver depois o final do filme também dá a mesma impressão. Esperar a ocasião de conversar com um amigo parece ser mais conveniente que procura-lo na lista de contatos e buscar conforto logo. 

Tudo por medo. Medo da rejeição, de passar algum tipo de vergonha, da falta de reciprocidade, de ser inconveniente, de causar má impressão, de deixar-se transparecer. Deixamos passar tantos abraços amigos, vozes roucas de sono por atender no meio da noite, tantas aprovações, tantos pensamentos semelhantes, tanto alívio por ter tudo pronto antes do prazo final. 

A gente acaba por viver se alimentando de preocupações, ansiedade, estresse e o que mais vier no pacote Procrastinação. Antes mesmo de fazer nossas vontades, somos bombardeados com a sensação prévia de que tudo vai dar errado. 

É perceptível que alguma coisa sempre está faltando - ou sobrando, explodindo no peito, esperando pra ser dita. Por que não deixar transbordar? Tudo tem sido tão efêmero que, se tudo der errado, logo ninguém mais vai lembrar. Se der certo, o resultado permanece por um bom tempo causando sorrisos do remetente ao destinatário. 

Coloque as possibilidades de resultados em uma balança e jogue-se para o lado que mais provavelmente lhe faça transbordar o peito de felicidade. Estar disposto a fazer alguém feliz, apenas dizendo pequenas palavras sinceras guardadas há muito tempo, pode ser o peso que vai fazer a diferença nessa balança. 

Depois pode ser tarde demais. O tempo pode já ter passado. A coragem pode perder ainda mais força depois que perde-se a chance de dizer o que está guardado - fazer o que está agendado, matar a saudade que cresce a cada dia mais. A vergonha não é nada quando deixada de lado em troca do calor de um sorriso. O preço da dor de precisar deixar alguém ir sem se despedir devidamente é muito maior que o preço do medo de não ser recíproco. O preço de uma amizade é muito maior que o de ficar sem graça ao admitir um erro. 

Faça hoje. Diga hoje. Ame hoje! Perdoe hoje. Ligue hoje. Peça um abraço hoje. Dê corda no seu coração, deixe que ele trabalhe e liberte o que vive aí.

Não há como pagar o preço de ser tarde demais. 





segunda-feira, 25 de março de 2013

Sincronia.


Eu não gosto muito de rever fotos. Não gosto muito de reler meus textos. Embora registrar um momento numa foto ou texto sejam duas maneiras que eu gosto muito de usar pra sair de alguma agonia. Mas aí dia desses eu estava sem sinal de internet e revirei meus arquivos do celular – contra meus próprios princípios – e encontrei essas fotos.

5h57min e 6h06min do primeiro dia do ano. Algum maluco deve ter continuado com os fogos em plenas seis da manhã, acordei e me deparei com essa vista da janela (tirar fotos com o celular meio dormindo, quem nunca?). 
Não tenho muita crença em blábláblá de ano novo. Aí lá perto de meia noite do dia 31 eu resolvi apostar. Essas seis horas da manhã foram só algumas horas depois de eu ter tentado conversar com o Universo - por favor, POR FAVOR, depois dessa meia noite alguma coisa tinha que mudar. Sério. Tudo simplesmente tinha que dar uma reviravolta, ou eu enlouqueceria. Sentei na frente de casa com o celular e meus fones pra suprir a necessidade de música. Dois mil e treze, porra, ali na frente eu vou estar com vinte anos na cara e as coisas mudam agora ou eu fico em crise pra sempre. Ouvi um monte de coisas aleatórias, dentre elas, O Resto É Nada Mais (queria por um dia conseguir mudar / deixar de ser errante, por um dia não andar). (Nada como melancolia em pleno último dia do ano).

Daí o Universo resolveu ser legal comigo. Não. Resolveu cometer uma baita sacanagem comigo, e depois ser legal. Mas o mais importante é que AGORA ele ta sendo LEGAL. Meu PEDIDO DE VIRADA DE ANO foi atendido e em menos de três meses – sabem aquele negócio de “antes de querer mudar os outros, tu tem que tentar dar três voltas dentro de si mesmo”? - a minha consciência deu umas trinta e cinco voltas. E daí? Sei lá. 

Minhas desculpas e meu muito obrigada a quem conviveu comigo até pouco tempo atrás – desculpas porque eu era um porre, obrigada por me suportarem sendo um porre. Sério. Desculpa por eu entregar a vocês a pior parte de mim. Minhas desculpas e meu muito obrigada também pra quem continua do meu lado – as desculpas pelo mesmo motivo, o agradecimento por acreditarem em mim, se é que alguém acredita. A quem entrou na minha vida há pouco tempo, meu muito obrigada e boa sorte – obrigada porque certamente vocês fizeram a diferença, e boa sorte porque virem-se pra suportar quem eu estou sendo agora (prometo tentar ser bacana).

Ao Universo, obrigada por atender meu pedido. Brincadeira. Obrigada por ser uma aleatoriedade completa, por não estar nem aí pra ninguém e por deixar que o movimento de uma poeirinha em outra galáxia interfira no teu funcionamento todo. Toda a tua sincronia me mudou pra melhor. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Não chegamos com manual de instruções.



Deve haver razão para não virmos ao mundo embalados numa caixinha, acompanhados de um manual de instruções. Alguém lê manual de instruções? Quem lê manual de instruções?

Pra ler o manual de instruções, espero o telefone celular enlouquecer e pedir uma senha de acesso até então desconhecida. Espero a câmera travar na função pôr-do-sol, pra só depois descobrir que dois botões resolveriam o problema. Espero a tevê sair do ar e até assisto a uma maré de pixels em preto-e-branco pra ver se ela volta ao normal sozinha. Uso o processador apenas como liquidificador, porque “o que fazer com as outras peças e funções” é algo que está lá, no manual de instruções.

Ler o manual é buscar a solução antes que apareça o problema. É ser prevenido, precavido, preocupado, prequalquercoisa. É ter coragem de ter medo que o pior possa acontecer; é saber que talvez seja preciso vasculhar nas gavetas da memória alguma informação lida e aprendida antes de ser necessário.

E se nós viéssemos com manual de instruções? Todos os nossos medos, angústias, sonhos, desejos, qualidades, defeitos, problemas que pudessem vir a existir e a solução para cada, habilidades, propensões a desenvolver o que quer que fosse... Tudo devidamente separado por categorias facilmente acessíveis num sumário. Cidades onde se encontra assistência técnica autorizada, seguidos de endereço do fabricante e 0800 na última página.

O manual de instruções é o fim de muito mistério. Aquela peça vai ali, ó. Isso, agora é só parafusar e pronto.

Quem estaria disposto a virar páginas a fim de saber o que se passa com o outro? Talvez não leríamos nem nossos próprios. Talvez fosse invasão de privacidade. Lê-lo tavlez seria estar apressado, seria caminhar um passo à frente. Seria como stalkear toda e cada parte de um alguém-produto.

No simples impulso de vontade, seria possível descobrir ali uma infinidade de informações. Talvez perdesse completamente a graça saber como alguém funciona, seus porquês, o encaixe de suas engrenagens, os detalhes dos diversos materiais e acabamentos. Certas vezes seria preferível manter distância dos detalhes de alguns. Seria questão de escolha manter o segredo e seguir com o desafio de mútua descoberta e conhecimento. Mesmo que, afinal, se ouvisse de alguém com rosas nas mãos:
– Tu poderias saber que prefiro orquídeas...


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Notas sobre páginas rabiscadas.

Lucas!

Decidi escrever pra você enquanto leio teu presente. Me pareceu uma boa ideia. Comecei a leitura essa semana, mas os estudos, trabalho e tudo mais me consomem quase por completo. Lerei sempre ao ter tempo livre e me atreverei a falar as baboseiras que me vierem à mente.
(12/11/12)

Se o garoto Philip fosse algo como meu amigo, eu diria que ele tem se isolado. Hoje, justamente hoje em que eu lia na sala de aula com meus fones, só pra afastar conversar inoportunas (rs). Justamente hoje, quando eu não quis papo com ninguém. Tudo por concluir que a maioria das pessoas tem sido medíocre o suficiente pra falarem, falarem, falarem e jamais pararem pra ouvir. Tem sido como se dissessem, sem pudor, que suas vidas são mais importantes. Seus feitos. Suas piadas. Enquanto eu penso, em silêncio, "vocês não sabem o que eu levo no peito". Logo depois, um outro Lucas me lembra que "é por isso que eu digo que eu não sei lidar; é muito mais do que o meu peito pode suportar". | Muita coisa tem feito sentido, pouca coisa tem feito sentido. Mas o que é a nossa consciência sobre o que faz ou não sentido, perante a infinita grandeza do Universo?
(13/11/12)

Talvez tu vá achar que eu sou louca, ou finalmente ter certeza disso. Mas insanidades acontecem, coincidências também. Hoje estava voltando da faculdade lá pelas 22:30 (ontem? Enfim). Ali no meio da rua, pertinho de casa, tinha (e quiçá ainda esteja ali) uma laranja no meio da rua. Sim, uma laranja no meio da rua. Estava chuviscando, aí lembrei de Tomato in The Rain - Kaiser Chiefs. Mas lembrei quase ao mesmo tempo  daquela foto em que o nosso planeta Terra aparece, quase por um acaso, e é comparado a um grão de areia. A um resquício de pó, perdido no Universo. Porra, Lucas! Jurei pra mim que sequer ligaria o computador, mas o fiz, e vi um post teu falando da mesma foto. Sorri. | A laranja no meio da rua. Bem, todas as reflexões que já fiz sobre aquela foto em que a Terra aparece se aplicaram a essa situação. Depende da importância que se dá. Minha visão sobre ela seria, certamente, diferente de quem a encarasse lá do final da rua. Minha visão certamente também seria diferente da de quem passasse por ali faminto com uma faca à mão. Me leva a pensar que se Alguém além de nós existe, durante toda a quase infinidade de tempo que se sucedeu até o dia de hoje, não tem observado suas laranjas muito de perto. | Mas aí já é outra história.
(14/11/12)

Lucas, às vezes algumas coisas fazem completo sentido. Parece que o susto tá ali, logo na esquina, esperando só pra ver que lado a gente vai escolher.
(19/11/12)

Certo. 23h59min, prometi a mim mesma que dormiria antes de 1h, então lá vamos nós. Não é insônia, é teimosia. | Acho que você nem vai se importar se eu jogar aqui qualquer tipo de devaneio ou angústia. Espero que não. Mas é gostoso ter pra quem escrever. Ter onde dizer o que der vontade. | "Se a gente morasse na mesma rua, essa conversa seria outra". Seria ali na frente, na calçada, tentando mensurar a grandeza da escuridão que nos cercasse. Prepara a playlist da noite aí, eu deixo. Música é tipo uma ponte que a gente tem, não é? Pontes unem lugares distintos, distantes, diferentes. Já pensou que muita gente que nos deixa feliz e muda nossa vida talvez nunca chegue ao aconchego de nossos braços? | Quando lembro disso, arranjo um ninho de palavras, pensamentos e acordes em algum par de fones; faço disso tudo um abraço.
(19-20/11/12)

Por favor, não conte quanto tempo se passou nesse hiato gigantesco desde a última vez que escrevi. Uma semana depois de já livre do final do semestre, uma semana de descanso à mente, já posso voltar a ler e escrever. Sério, estive perturbada com tamanho alívio que acabei largando das palavras. Tanto lê-las quanto escrevê-las. Sobre palavras, comentarei: estive no Museu da Língua Portuguesa, visita infelizmente breve. Dez minutos de narração sobre a história de nossa língua-mãe, seguidos de vinte minutos de poesias, enquanto projeções incríveis aconteciam no teto. As palavras eram estrelas. Talvez não fossem tão incríveis assim, mas me tocaram tanto que foram vinte minutos de Tassiane chorando (e soluçando sem controle) ao ouvir coisas que me remetiam ao tempo de escola ou à infância. Sei lá que emoção foi aquela. Vinte minutos de poesia e lágrimas que compensaram quaisquer contratempos da viagem. | Ah, fiquei hospedada no alto de um sexto andar. Já se consegue imaginar do que acabei lembrando.
(14/12/12)

Consegui terminar a leitura de Servidão Humana. Preciso admitir essa overdose de pensamentos sobre a vida desde então. Lembro que algum professor usou também da analogia com um tapete ou um tecido. Nenhuma vida se tece melhor que a outra. Nem mais bonita, nem mais valiosa. Nenhuma chega a ser igual. São apenas todas diferentes. Depois que chegam ao fim, sim, pouca diferença cada uma faz, exceto pela intervenção que se faz nas emoções alheias enquanto se vive. Pouca coisa sobra, poucos viram história. | Há poucos dias, ouvi alguém dizer que meu lugar não é aqui. Não, não como ofensa; apenas porque é perceptível que nessa cidade eu não me encaixo. Foi-me impossível não comparar com todos os sonhos de Philip viajar pra longe, pra lugares idealizados por ele como os certos pra se viver ou fazer sentido em si próprio. E eu realmente pretendo deixar daqui, não que não goste. Mas quem sabe? Quem há de saber onde vou estar amanhã? Nunca fui de muita coragem ou metas ou planos, mas percebo que com um pouco de esforço sempre acabei mudando pra melhor (fora o sento de humor atualmente incompreensível). | Ter em mãos o infinito. Philip sempre pôde. Seguiu caminhos absurdamente diferentes dos que havia planejado. Cometeu os maiores erros. Foi mais longe do que algum dia imaginara ir, mesmo que na direção errada. | Amor é praga e bênção na vida de qualquer um; nos faz ir além do que pensávamos ser o limite até para a sobrevivência. Amor e ódio acabam coexistindo, a gente foge e corre atrás do que nos correu e nos fez bem também. (Maldita Mildred.) Mas sobrevive. Tem sorte a alma que algum dia puder se entregar à reciprocidade. | Tu tens teus apenas 16, eu meus apenas 19. Com o tempo as coisas vão ficando mais sérias, profissionais, adultas, práticas, monótonas, cinza. Não sei se é bom ou se é uma pena que tenhamos que perceber isso cada vez mais cedo. Tudo deveria ser levado com mais tranquilidade, coragem, cores, atrevimento, ânimo, vontade, voz. Música. Livros. Céu noturno. Perfumes. Deveriam ser mais fáceis, já que tudo parece ser efêmero e ter como único propósito o fechamento do ciclo início-meio-fim. | Que em meio ao caos, nos sobre tempo e capacidade o suficiente para sentir. | Já é 2013. Feliz vida nova a cada dia.
(01/01/13)

Muito sinceramente, Tassiane Wanderweger.

A Lucas Amorim.

domingo, 2 de setembro de 2012

Poderia ser.


Hoje ele chegou em casa e repassou a semana na mente. Todas aquelas noites em claro. Já se acostumou a conciliar estudos, provas, projetos, trabalho extra a fazer em casa, mil obrigações a cumprir. A sala, o quarto, a cozinha, toda e qualquer parte do cubículo solitário em que vivia estavam em quase completo abandono. Falta de tempo. Pela mesma falta de tempo, só seus livros e discos estavam no lugar. Sequer pôde dar play em alguma trilha sonora pra embalar sua solidão.

Ela já havia combinado a saída com um grupo de amigos na semana passada. Precisava estar com eles, preencher com conversas supérfluas o vazio que alguém há pouco tempo deixou em seu peito. “Precisa ser assim” pensou, durante o banho rápido pra não se atrasar. “Pelo menos as coisas ficam um pouco mais fáceis quando tenho companhia”. Saiu do banho, soltou os cabelos, realçou os lábios e cobriu o corpo com o vestido mais leve e confortável. Não precisava exagerar. Ainda era muito cedo pra que alguém a achasse atraente.

O celular dele apitou. Algum amigo perguntando sobre seu sumiço. “Arranjou alguma garota e não quer nos apresentar? Hoje vamos pro mesmo lugar de sempre, nos encontre lá. P.S.: pode convidá-la.” Não havia garota. Havia apenas os degraus que ele precisava subir sozinho pra alcançar seus sonhos, lá longe. Precisava fazer isso sozinho e ocupar todo o tempo possível, mas hoje poderia sair com os amigos. Não queria perdê-los ou chateá-los, eram poucos.

O interfone tocou e ela não seu deu ao trabalho de atendê-lo. Não precisava pedir para que esperassem mais cinco minutinhos, estava pronta. Em menos de quinze minutos, ela e seus amigos já dividiam uma mesa no cantinho do estabelecimento (indefinido, era um lugar tranqüilo, um misto de cafeteria-bar-com-um-palco-pra-showzinhos-e-vexames-no-karaokê; barfeteria), ali, perto do palco. Todos gostavam de música, independente de quem aparecesse ali pra errar notas ou desafinar no refrão.

Ele foi com os amigos, que sempre cometiam a mesma estupidez: encontravam-se naquele barzinho estranho e aconchegante e logo partiam pra algo mais agitado. Gostava de todos e da companhia deles, mas depois de noites insones com a mente oscilando entre aprendizado e solução de problemas, não era numa noitada vazia com os amigos que gastaria suas energias. Preferia mesmo era poder conversar, mas acabou sozinho, migrando da mesa para o balcão. Em algumas poucas noites deixado sozinho (sim, porque quis) pelos amigos, quase já havia conhecido o barman; tragicômico. Não tão ruim, isso pelo menos não o deixava desconfortável.

Bem-resolvida, ela já sabia que voltaria para casa sozinha; não via problema algum nisso. Era o que queria, o que precisava. Alguns amigos já haviam se despedido, então o cansaço a ajudou a decidir por se despedir também. Todo dia é quase uma vida nova e, começando por amanhã, ela ainda tem muito a resolver. Visitar a família, procurar na livraria os títulos de alguma lista, pagar contas, perder alguns minutos em frente ao computador procurando algum show que lhe dará horas de satisfação, talvez até dias. Tem vontade de aprender algo novo, talvez logo providencie alguma matrícula. E tudo o que tinha a resolver desapareceu de sua mente enquanto deixava seus amigos em direção à porta.

Se eles tivessem prestado mais atenção ao que acontecia ao redor, talvez tivessem percebido um ao outro. Ele teria reparado naquele vestido inapropriado para um barzinho, mas completamente apropriado ao corpo esguio e delicado dela. Ela teria reparado que ele tinha a barba por fazer, desleixo lhe conferia certo charme. A noite inteira, ela sorriu seu sorriso mais bonito; ele, um pouco preguiçoso, prestou atenção em tudo o que os amigos diziam, com aquele olhar de quem quer sempre aprender. Gestos, camisetas, sapatos, sorrisos, testas franzidas, expressões bobas ou envergonhadas, mãos sem um destino. Esses detalhes e tantos outros mais de quem não se vê acabam passando despercebidos.

Ela a caminho da porta, ele ao balcão. Ambos vítimas de leve embriaguez, tanto do álcool quanto da distração pela quebra de rotina. Ali trocaram um olhar. Duradouro, sem querer, por ambas as partes. Pareciam ter a mesma expressão e, por um momento, entenderem um ao outro. Ninguém pestanejou, o diâmetro das pupilas talvez tenha oscilado. Como se fosse a primeira e a última vez que se encontrassem – sem querer. A excitação pelo desconhecido e o adeus. Como todos os olhares de um eterno romance, resumido num único olhar de dois desconhecidos. 


domingo, 20 de maio de 2012

Me cura.



Ei, eu me perdi. Tá tudo confuso, aqui. Vem me buscar, me leva pra algum lugar, segura minha mão bem firme, senta do meu lado e me aquece. Brinca com meus dedos, com meu cabelo, e não desvia o olhar quando eu o procurar.

Me segura bem perto? 'Cê sabe que eu tremo sem motivo nenhum. Aguenta firme, logo te sinto por inteiro e todo o tremor passa. A insegurança passa. O medo passa. E aí a gente pode olhar quietinho pro céu até o silêncio ficar insuportável e eu falar alguma das minhas besteiras, desabafar alguma angústia ou dizer que contigo eu estou feliz.

Mas vem logo, não precisa avisar. Se você sair daí agora, não demora muito a chegar. Eu vou estar sempre de olho por uma fresta da cortina, prestando atenção em alguma telinha com seu nome piscando ou em qualquer barulho que preceda sua chegada. Mas chegue de surpresa, prefiro assim. Não me conte dos seus planos, não prometa, não jure, simplesmente não diga. Deixe pra dizer o que deve ser dito olhando nos meus olhos e sentindo minha respiração baixinho no teu peito.

Só te peço uma coisa: não se assuste, dessa vez. Não fuja. Eu vou querer te aconchegar mesmo quando você quiser fugir, vou carregar comigo a sensação de que o teu olhar tem algo estranho e triste. E que você precisa de alguma coisa que eu nunca vou saber o que é. Eu vou sentir tua falta, vou querer ouvir tua voz, vou procurar saber como está quando não tiver notícias, e mesmo assim terei medo de sair na rua e te encontrar de repente. Mas eu sou essa confusão, costumo pensar sobre mim - e nem eu consigo me entender. Vejo todas as pessoas  como estradas contínuas, com começo, meio e fim. E me vejo num trânsito caótico de alguma cidade movimentada e desconhecida: não me encontro.

Ainda não sei me cuidar, por mais que me digam pra fazer isso, por mais que eu tente. E eu tento, mesmo sabendo que é só pra cumprir todas as vezes em que prometi fazer isso. Sabe, eu quero continuar sendo forte, quero acreditar que sou tudo o que ouvi ser, praticar o que aprendo estando sozinha. Mas não te impeço, se quiser vir me cuidar.

Então... Vem me buscar, me leva pra algum lugar?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Agora. (01)



Mas eu decidi que, assim... eu vou cuidar de mim. Não que assim eu ganhe mais, apenas percebi que perco menos. Perco menos amizades, percebo quem não era amigo. Perco menos tempo tentando consertar erros que não foram meus. Menos falta de sono, de concentração, de apetite.

E vou deixar ir pra longe quem quiser. Manter por perto só quem achar melhor assim, quem precisar e conhecer muito bem a reciprocidade; quem fica por amor e não por pena. Tentar deixar saudade, sentir saudade, matar saudade e o mais importante: não deixar acumular saudade.

Me apaixonar cada vez mais pelos meus livros. Cuidar das pessoas como cuido deles - relendo alguns trechos de vez em quando, tirando o pó, reorganizando, tirando-os da estante pra deixá-los respirar um pouco. Arrumar uns fones novos pra fazer o que faço de melhor: me encher de música e absorver delas tudo o que me for possível. Viajar nos riffs, me jogar nos solos, afogar nos vocais e morrer de amor às vozes. Voltar a escrever e desenhar ainda mais: sujar o papel de tinta, de giz, de caneta, de cor-de-lápis, preencher a tela do computador com caracteres, só pra não marcar o travesseiro com círculos úmidos e salgados.

De mim, quem quiser saber, é só perguntar. Talvez eu conte como vão as coisas, se puder, se assim melhor for. Dos outros, não pretendo saber além do necessário pra convivência - com raras exceções. Vou tentar dar conta de viver o que puder agora; todos sabem que o futuro é incerto. Talvez amanhã eu possa deixar a cama vazia por mais tempo, um livro marcado em alguma página aleatória, um álbum sem ouvir, um texto sem escrever, uma sms por mandar, o telefone na mão sem coragem pra ligar. Não faço questão de preencher todas as lacunas, só gostaria de não deixar pela metade as mais importantes.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Traz-te.


As paredes brancas de meu quarto pedem por nova decoração. O espaço vazio ao meu lado implora por um ocupante.

Então vem. Vem e traz contigo teus discos, rabiscos e sonhos. Traz toda a tua bagagem, as tuas cicatrizes e histórias para me contar. Vem, e deixa pra trás os medos, as roupas que tu não usas mais e teus planos de viver sozinho. Esquece de ser viajante. Vem e traz contigo teu despertador, teu telefone e documentos; cuidarei do teu nome, te ajudo a construir novos sonhos se me ajudar a juntar os meus aos teus.

Vem e te traz contigo, pra ser feliz comigo e esquecer os velhos amores. Chega e preenche o espaço vazio, deita do meu lado, me conta histórias deixadas pra trás, inventa pra mim o que pode vir.

Vem, pra me fazer imaginar cores nas paredes, pinceladas insensatas e respingos da tua doçura. Traz pra mim o que tu tiveres de amor, me faz companhia, conta estrelas do teto, não me deixe dormir. Vem aqui, deixa teu perfume impregnado em meu travesseiro e lençóis; tua voz calma em minha memória, teu calor em meu corpo e a impressão fria de teus dedos em meus ombros. Deixa-me com ansiedade por uma volta, mas se puder deixa-te estar.

Vem e não esquece do teu mistério, lembre das velhas promessas, as que fizestes ou que eu preciso cumprir. Traz-me o frio na barriga e todas aquelas sensações que tu sempre lembras de me dar de presente.

Traga também papel, caneta e todas as palavras que puder carregar nas mãos. Vem e me deixa um bilhete toda vez que precisar me deixar, sabendo que vai demorar um pouco.

Mas vem, e preenche com tua vida todos os espaços vazios da minha.